terça-feira, 14 de julho de 2009

Elba Ramalho remasterizada

A paraibana Elba Ramalho vive de superação. Sua carreira oscilou entre a beleza rústica de "Ave de Prata" e a beleza plena de "Leão do Norte", discos separados por mais de duas décadas. Mas não é sobre esses dois maravilhosos álbuns que devemos discorrer nesse momento em que a artista celebra seus 30 anos de carreira, mas sim sobre as quatro reedições de discos importantes na sua obra, e o link que eles possam ter com o recém-lançado "Balaio de Amor".

O que a Elba de hoje tem a ver com a Elba de 1979? Muita coisa. Pelo menos no que diz respeito à forma como a intérprete registrou a música regional nordestina sem perder contato com nomes como os de Chico Buarque, por exemplo, e saiu ilesa. A gravadora Universal Music acaba de reeditar quatro obras bastante significativas para a afirmação de Elba Ramalho no contexto abrangente que se abriga na sigla MPB. "Alegria" (1982), "Coração Brasileiro" (1983), "Do Jeito que a Gente Gosta" (1984) e "Fogo na Mistura" (1985) deram a artista status pleno de estrela da Música Popular Brasileira.

Se o disco de estreia, "Ave de Prata", rasgou o véu dos limites estabelecidos pelo preconceito estético, estes que acabam de ganhar edições remasterizadas e com encarte farto de informações, mostram-na fiel à proposta inicial, sem sinais de acomodação. Elba Ramalho foi muito corajosa, temos de admitir. E admito isso hoje fazendo uma meia-culpa porque quando ela fez sua estreia fonográfica cheguei a chamá-la de gralha nordestina, e isso me custou certa mágoa por parte da artista, somente desfeita há uns seis anos quando conversamos e exorcizamos tais querelas.

Ganho de qualidade sonora e farto material fotográfico

Os quatro CDs que acabam de serem relançados, com um ganho enorme na qualidade sonora e com encartes fartos em textos e fotos de época, ratificam duas coisas: primeiro a vocação nata de Elba Ramalho para interpretar e segundo a evolução que teve como cantora a partir de meados da década de noventa. Insisto em dizer que há bastante diferença entre cantora e intérprete, e cito um exemplo bem claro: Gal Costa é mais cantora que Maria Bethânia, que por sua vez é mais intérprete.

"Alegria", disco de 1982, é um dos melhores da carreira d’Elba, juntamente com "Leão do Norte", "Qual o Assunto que Mais lhe Interessa?" e "Flor da Paraíba". Coincidentemente a primeira faixa de "Alegria" é assinada pelo ‘pernambucano’ (metade pernambucano, metade paraibano) Lula Queiroga, que produziu "Qual é o Assunto...". Logo em seguida temos a melhor faixa do disco, que é "Dominó", de Zé Ramalho, e também devemos destacar "Chego Já" (Alceu Valença), "A Casca do Ovo" (Gonzaguinha) e "No Som da Sanfona" (Jackson do Pandeiro e Kaká do Asfalto). É um disco que merece quatro estrelas em cinco possíveis.

"Coração Brasileiro", de 1983, também é ótimo, e histórico. Por que ótimo? Por ter interpretações fortes de Elba para obras como "Chororô" (Gilberto Gil), "Roendo Unha" (Luiz Ramalho e Luiz Gonzaga) e "Canção da Despedida" de Geraldo Vandré e Geraldo Azevedo entre outras. Esse disco ficará histórico não apenas pela qualidade, mas por marcar um episódio no mínimo curioso. Quando gravou o LP, Elba colocou como autores de "Canção da Despedida" Geraldo Azevedo e Geraldo. Mas que Geraldo era o segundo, perguntavam-se os menos informados. Era o Vandré, à época ainda meio satanizado como um marco do comunismo. Elba Ramalho me disse que não colocou o sobrenome artístico do conterrâneo porque ele se negou a liberar a música. O disco ficou mais histórico, com certeza, mas nem mais nem menos belo.

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Música regional

Assim, podemos perceber que a carreira de Elba se definiu na década de 80, para depois deslanchar e quebrar os selos do confinamento de sua atuação para além do que se convencionou chamar de música regional. Somos um país que se diferencia justamente pela diversidade, mas uma diversidade que se entrelaça e cria uma MPB fortalecida. Elba Ramalho, assim como seu primo distante Zé Ramalho e os pernambucanos Geraldo Azevedo e Alceu Valença, deu uma contribuição enorme para que pudéssemos encarar seu gênero como algo mais que uma clausura estética. Com esses quatro discos devidamente (e dignamente) reeditados, não apenas os fãs da cantora, mas todos que gostam de boa música, estão sendo brindados. Provavelmente essa iniciativa de Rodrigo Faour de remasterizar e editar esses discos da cantora paraibana com encarte rico em notas e detalhes técnicos em geral, pode ser o início de uma releitura da MPB esquecida nos arquivos das gravadoras embotadas de "mercadorias de baixo calão" e indiferentes ao passado (e presente) de glórias da nossa música popular.

Fonte: A União
Créditos: Redator, Ricardo Anísio/ Editoração, júnior damasceno

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