
ELBA RAMALHO por Lucia Souza Junho de 1996
Coragem é palavra de ordem no dicionário de Elba Ramalho. Por isso mesmo não hesitou em pedir rescisão de um contrato de doze anos com a Polygram por pura insatisfação. Leão do Norte, um álbum que reflete em grande estilo suas raízes nordestinas, era um sonho antigo no qual a BMG apostou e pelo visto, não se arrependeu. Tanto que já 'abraçou' outro projeto da cantora paraibana - que na contracapa do disco expões toda sua sensualidade e ousadia - de transformar em disco ao vivo os shows que vinha fazendo em parceria com Zé Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo.
O disco é um resgate de suas raízes nordestinas. Além da vontade de cantar suas origens tinha com este projeto o objetivo de alguma outra conotação política ou estética ?
Busquei o trabalho pela obra, pelos compositores. Não fui selecionando tipo "essa toca no rádio?" ou "essa eu vendo bem ou não?". Chega, me libertei, não quero mais essa espécie de compromisso ! Se eu vender 20, está bem, se for 60, melhor. E se eu não vender nada também não vou me agoniar. Meu desejo sempre foi recriar nossa história, nossas festas, manter viva e acesa a fogueira de São João. Quando sugeri na música que nosso hino nacional fosse "Asa Branca" e nossa bandeira de renda cearense é dessa forma uma utopia. É mais para que as pessoas do Nordeste pudessem se voltar. E naturalmente o Nordeste fez isso, praticamente todas as discotecas viraram casas de espetáculos aonde se apresenta música popular brasileira também. Sinceramente, e não é porque sou de lá, no Nordeste não existe esta distinção de que isso é MPB e aquilo não. O Paralamas vai lá e faz o maior sucesso, assim como um grupo de forró, Chico Science. O espírito do povo é festeiro. Leão do Norte traz uns achados que merecem ser ressaltados. Têm duas músicas de Luiz Gonzaga e uma delas é "Treze de Dezembro", a data do aniversário dele. É um chorinho feito em l953. Gilberto Gil foi passar o aniversário de Gonzagão lá em Exu, em l986 e nesta noite, anos depois, recebeu a inspiração para fazer a letra para esta música. Ouvi Gil tocá-la em l988 e guardei-a na cabeça. Quando fui pesquisar a obra de Gil, Caetano de Dorival Caymmi tinha tanta coisa boa que não sabia o que gravar. Então resolvi seguir o lado do coração.
Sua saída da Polygram teve alguma coisa a ver com esta pressão em torno da venda de discos ? Você chegou a apresentar o projeto deste disco lá ?
Saí porque estava ... (suspira) cansada. Não apresentei o projeto de Leão do Norte lá porque a coisa foi dita: "você vai gravar um disco de baladas". O produtor já estava escolhido e veio logo me dizendo " já estou com cada balada linda". Então não quis discutir porque no disco anterior, Paisagem, a briga foi violenta. Eu dizia que não queria determinadas músicas, me empurraram um axé fake e diziam "vai gravar!". Mostrava as músicas do Lenine e respondiam que "estava por fora". Moraes Moreira eu levei cinco músicas no ano passado, quase que não entrava nenhuma, nada agradava. Não posso ficar numa gravadora em que eu não decido o que vou gravar. Não tenho nada contra a Polygram e nem vou cuspir no prato que comi. Mas veja bem a contradição. Certo dia me avisaram que eu iria gravar um disco chamado Forrobodó com vários artistas cantando música nordestina. Falei, "como ?". Então quer dizer que eu iria gravar um disco de baladas enquanto Wando e José Augusto iam gravar forró. Piração da gravadora ! Achei que o caminho da gravadora estava errado. E acho que eu estou certa. É muito ruim o Forrobodó, não é verdadeiro. Até poderia ter feito um disco de baladas lindo que fosse tocar bem, talvez vendesse muito, mas não era o que eu queria. Não estava sendo bem tratada. Ouvi frases lá dentro do tipo "o Nordeste está por fora". Não acho que o Nordeste esteja por fora, muito pelo contrário, o Nordeste está por dentro, está todo mundo se voltando para a música regional. Até mesmo os rockeiros, funkeiros, é o que chamam de world music, essa mistura de rap com funk in lata, rap com forró, forró com maracatu, maracatu com rock e pronto, dá essa confusão toda. A Polygram agora vira e fala que poderia ter feito o projeto lá, mas tenho a certeza que não poderia. Pelo menos não com a autonomia que tive na BMG.
Teve alguma relação com o que saiu em uma matéria da revista Veja de que a gravadora teria dito que você vendeu cem mil cópias de Paisagem e na verdade foram trinta mil ?
Nunca protestei com a Veja porque nunca dei aquele depoimento à revista e nem ninguém deu. Eu tenho dez discos de ouro e seis de Platina, todos são reais e por todos recebi os direitos autorais correspondentes.
No caso de Paisagem você então recebeu os direitos autorais pelas cem mil cópias vendidas ?
Recebi o correspondente. Não sei ao certo quando Paisagem vendeu, acho que foi em torno de 80 mil cópias. Essa história não existiu, a revista Veja fez por conta dela, não sei dessa história. E inclusive eu já tinha mudado para a BMG quando saiu aquela matéria que, aliás, até desmascarou um pouco a Polygram de certa forma. Fizeram isso porque acharam que na verdade 25 de Dezembro da Simone não vendeu tanto quanto disseram. Tem umas gravadoras que fazem isso, não sei quais são mas acho que existe isso sim. Igual a Netinho que uma disse que antes de seu álbum ser lançando já era Disco da Platina quando na verdade o disco ficou encalhado nas lojas. Existe um negócio aí que não sei bem ao certo o que rola, mas é uma coisa nova que tem acontecido com algumas gravadoras. Essa (referindo-se a BMG Ariola) não faz isso.
Foram quantos anos de Polygram ?
Foram doze anos. Não estava satisfeita, saí por uma questão de ideologia. Em Paisagem me aborreci muito. Fiz, terminei, mas muito aborrecida porque não resolvia tudo no estúdio, musicalmente. Puxa, se não souber o som que quero tirar na música é melhor então ser manipulada! E não sou esse tipo de artista. Venho de uma escola de teatro onde os próprios integrantes liam o texto, costuravam as roupas. Era a gente que bolava o cenário, batia prego, varria o palco. Eu gosto de participar. Não assino nada porque não tenho egotrip para dizer que eu também fui produtora, que eu fiz a luz ou não sei mais o que. Mas as idéias são discutidas com comigo. E em Paisagem não pude opinar. Muitas coisas achei que estavam erradas no disco, porém existia uma oposição que vinha de cima ...Sabe aquela situação em que você sente que não é a estrela, que a estrela é o produtor artístico ? Basta a contradição, um disco de forró com Wando, José Augusto, Tânia Alves, Cássia Eller, Paulo Ricardo e um disco de baladas comigo. Está certo este conceito ? Pra mim tá errado. Resolvi sair de lá por essas contradições. Participei do disco Casa de Samba porque me chamaram e eu fui. Fui por generosidade porque adoro Jair Rodrigues e adoro samba também. Moro no Rio, sou meio carioca. O Flávio José me chamou para cantar forró e eu fui, se o Chico Science me chamar para cantar maracatu eu vou. Vou com qualquer um porque eu quero emprestar, não sou uma pessoa que ficou escolhendo artista pra gravar, seja ele o mais brega ou mais maravilhoso vou lá dar uma força. Você insistiu na pergunta e não sei se ouviu isso da Polygram porque todo mundo tem falado "ela não apresentou este projeto na gravadora". É lógico que não apresentei porque eu não ia ter a liberdade de realizá-lo como eu queria. Tanto é que fizeram esse disco Forrobodó. O tal do Zé Augusto, tadinho, ótimo cantor ficou perdido cantando forró. É lógico que ele ficou tonto e declarou numa entrevista. "Esse negócio de cantar forró precisa ser de lá, né, é meio difícil"(risos). Mas é que tem que ter a alma nordestina e parece que muita gente considera o forró a arte menor no Nordeste. Por exemplo no Prêmio Sharp, a arte maior é a MPB. Aí os jornais publicam as premiações com todas as categorias, menos Regional. Porque é arte do povo é menor (ironiza). Vai alguém da MPB fazer forró pra ver se tem pique e fôlego. Vá lá e faça pra ver se é fácil ser Jackson do Pandeiro. Ele não é menor que João Gilberto em nada. Mas na do critério, o João é que o gênio e o Jackson, coitado, com aquele chapeuzinho de couro, aquele pandeiro, roupinha de matuto... O que é isso ! Luiz Gonzaga é um rei, é tão grande quanto Tom Jobim. Para o meu país ele é.
É verdade que você queria ter gravado "Mama África" e não o fez porque teve um desentendimento com a Daniela Mercury ?
(solta uma gargalhada) Ah... fofocas ! Não teve desentendimento. Veja só, quando ouvi o disco do Chico César, Aos Vivos, liguei para ele dizendo que adorei e já estava ensaiando "A Primeira Vista" e "Mama África". Claro, são as duas músicas que estão no faro das cantoras todas não é ( afirma sorridente). E ele também acertou porque são as músicas que ele está conseguindo tocar no rádio, assim como o "Béradêro". Aí Chico me disse: "Elba, não sei se vai dar porque dei 'Mama África' e 'A Primeira Vista' para Daniela gravar". Na verdade quem descobriu discograficamente Chico César foi a irmã da Daniela Mercury, a Vânia Abreu. Vânia gravou "Templo", que agora está tocando muito nas rádios na voz da Renata Arruda, e mostrou para Daniela. A Daniela conheceu o Chico através de Vânia e pediu para ele a exclusividade nas canções. A exclusividade foi feita verbalmente, de certa forma não existe porque quando um disco está na praça qualquer pessoa pode pegar lá o que quiser e gravar. A editora pode bloquear, é lógico, se Chico se comprometeu e editora obviamente pode embarreirar qualquer outro artista. Eu fique super triste, falei que ele poderia deixar nós duas fazermos. Não quis, então peguei "Béradêro". Ele vem e diz que Zizi Possi já ia gravar esta música. Coincidentemente encontrei com a Zizi na semana seguinte e perguntei se ela se incomodaria se eu gravasse "Béradêro". Zizi respondeu que absolutamente, que ia achar lindo porque ela certamente iria gravar de um jeito e eu de outro. Na verdade eu penso isso, a fofoca foi porque eu falei que acho uma besteira você ficar receoso por alguém já ter gravado uma mesma música. Eu vou cantar "Mama África" nos meus shows e Daniela não vai poder proibir. Vou divulgar para ela a música, certo ? Ela vai gravar e eu divulgo pra ela. A interpretação é diferente, é besteira essa discussão. Daniela até me veio com explicações depois, não fiquei chateada não. E ao mesmo tempo existe um material tão farto de Chico que na mesma hora escolhi outra. Chico está disputado e estou felicíssima, deixa ele ganhar bastante dinheiro. Ele e Lenine, pra mim, são as melhores coisas que a música brasileira ganhou nos últimos tempos. Lenine então, sou ainda mais apaixonada e não teve o boom popular do Chico César.
A BMG tem um mercado latino super potente. Como vai ser a distribuição deste disco na América do Sul ?
Sinceramente, eu teria que parar minha carreira pelo menos uns seis meses para me dedicar ao mercado latino e não consigo fazer isso, sou muito comprometida com shows e mais shows. Só no México agora em setembro farei seis. Mas acho que agora com este disco regional talvez tenha mais projeção neste mercado. Agora, vou lhe ser sincera e mostrar que não 'cuspo no prato que comi, com Devora-me que é um disco que adoro, na época falei e continuo falando que é muito bom, bem feito e produzido, a Polygram foi fantástica. Conheci o mercado latino e trabalhei lá através da Polygram. Hoje se quisesse gravar um disco de salsa poderia chegar em Nova Iorque, cantar amanhã nos clubes mais latinos que têm e com os melhores cantores latinos do mercado porque conheço todos, cantei com eles ano passado no maior encontro latino de Nova Iorque, Combination Latina, para 20 mil pessoas. Só tinha eu de brasileira e foi unânime, eles me trataram muito bem, é um mercado unido, Célia Cruz, Tito Pontes, gravei com Oscar de Leon. Quer dizer, abri milhões de portas no mercado latino com a Polygram, só me faltou tempo. Além da minha carreira, ainda tenho os shows com Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Alceu Valença. Em julho vou gravar um disco ao vivo com eles, só não sei se será no Canecão Rio ou em Recife. Será lançado pela BMG no final do ano. Ao mesmo tempo, veja como a Polygram adora fazer esses negócios, lançou um disco chamado Os Quatro Ases do Forró e aí botou eu, Alceu, Geraldo e Moraes Moreira, porque não tinha obra do Zé Ramalho na casa, meteram Moraes como o Rei de Copas. E até atrapalhou um pouco, porque o Mauro Ferreira do jornal O Globo fez uma matéria achando que era o disco de nós quatro.
Recentemente a tragédia das vítimas de Caruaru, em Pernambuco, chocou o país. E as autoridades não deram e não estão dando a devida autoridade. Já dizia Milton Nascimento que o artista "tem que ser a voz daqueles que não têm microfone". Até que ponto o artista deve agir e atuar como porta-voz do povo ?
Acho que todo artista deve participar sim, até como cidadão, independentemente de ser artista. Já que têm opinião de massa, são responsáveis. Lidamos com muitas pessoas e de certa forma podemos ter maior acesso aos políticos. Acho importantíssimo qualquer pessoa realizar trabalhos sociais e filantropia. Minha preocupação também é essa, a de arregaçar a manga e fazer alguma coisa. Apesar de que, as carreiras são tão absorventes, pelo menos no meu caso. Sinceramente gostaria de ter mais tempo tanto me dedicar mais a minha vida espiritual, fazer mais caridade e uma outra série de coisas. O fato é que o Nordeste sempre foi alvo dos políticos. O que se explora no Nordeste... É uma região fragilizada pela seca, carente e uma região extremamente afetiva. A carência das pessoas é alvo fácil para a exploração humana dos políticos. Quando gravei "Nordeste Independente" fiz todo um discurso de que os políticos, os homens de poder, quando chegam na época de eleições vão pedir votos e não irrigam o Nordeste, a seca continua existindo, entra ano sai ano o sertão continua ao Deus dará, esses casos como o de Caruaru... (suspira indignada) Ah, mas são casos absurdos, a política é uma sujeira. Seja aqui, em Brasília, São Paulo, Rio, Caruaru, na Paraíba... Existem homens e homens, está todo mundo meio mascarado ainda, parece O Baile dos Mascarados, ninguém sabe ao certo quem é anjo ou demônio, está todo mundo tonto ainda, no meio do tiroteio. Mesmo quando eles se revelam demônios continuamos convivendo com eles no poder. Isso pra mim está atravessado. Eles estão lá no poder assumindo cargos de autoridade, a gente sabendo que são ladrões, que exploraram, que roubaram, que mataram e nós não tomamos atitudes definitivas. Por que, eu não sei. Imagine no Nordeste, que dirá em Caruaru se as famílias vão ser indenizadas ? Nunca que vão ! Cadê o Prefeito de Caruaru ? Se lá está assim, imagine como não está o sertão no Nordeste, pior ainda, que neguinho faz, mata e acontece. O coronelismo foi criado por causa disso. E a Reforma Agrária, por que não é feita no Brasil? Não fui ao jantar que José Maurício Machline ofereceu ao Presidente Fernando Henrique em protesto. Numa boa, Fernando Henrique, no dia em que estiver cara a cara vou lhe falar, senhor Presidente, eu votei no senhor mas, com todo respeito, quero lhe perguntar sobre a Reforma Agrária, quando é que vai ser feita ? Quando é que o senhor vai enfrentar os coronéis e assentar o povo ? Meu pai já disse: 'tá maluca de falar em Reforma Agrária !'. Brinquei com ele: "por que, vai doer no seu bolso ?". (risos).